Descompasso em tango
Um breve registro feito com celular no final de 2011 e início de 2012, em Buenos Aires, Argentina.
Um breve registro feito com celular no final de 2011 e início de 2012, em Buenos Aires, Argentina.

Tudo parece ser tão importante.
O frio que se sente, a saudades que grita, o arrepio na espinha.
A inércia ou movimento não importam.
O resultado é passageiro e o caminho é único.
As horas passam e a contagem é regressiva.
Tudo vale.
Ou nada tem importância.
Luzes se apagam e toda energia cessa.
A música toca, mas é o silêncio que fala.
São apenas seus olhos.
É somente sua memória.
São esses os teus passos e planos.
As passagens marcam, mas os ciclos se encerram.
E no fim, tudo volta a ser como era antes.
É, parece ser tudo tão importante.
E óbvio.

Oitavo andar, é aqui.
Saio do elevador e só escuto o silêncio atrás da porta.
A luz da sala, agora, parece mais fria iluminando a TV no chão, que faz companhia para as poucas garrafas de bebida que foram deixadas para trás
As paredes, vazias, fazem contraponto com os cinzeiros, todos cheios.
Aquele trem iluminado que ficava na parede ao lado já não me fita mais.
No caminho até meu quarto, espio a porta ao lado. Lá, a arara, agora vazia, não suporta mais o peso dos mil casacos que, em alguns momentos, quase o fazia tombar.
Sentado no sofá, alcanço o maço de cigarros em cima do puff, que fora transformado em apoio para os pés.
Na poltrona ao lado, minha memória faz piscar um frame daquela silhueta mal acomodada, que se contorcia para ocupar o pequeno espaço entre os encostos.
A vassoura, encostada na parede, completa o cenário com a sujeira do chão, deixada pelo arrastar de móveis e o carregar de coisas.
Hoje, o ar dessa casa perdeu o frescor parisiense. Perdeu as boas trocas de ideias, o compartilhar das experiências, o aconchego de quem, num cruzar de olhos, entende você melhor do que qualquer outra pessoa.
É louco pensar que, há menos de um ano, lá estava eu, cá estava você, se lembra? Ambos, na mesma situação. Eu me casando e cheio de planos, você se recuperando e se dedicando ao trabalho. Agora é você quem voa, e sou eu quem fico.
A vida da mesmo voltas. E quanto mais a gente busca o sossego, mas ela nos chacoalha.
Pareço triste, mas estou feliz. Feliz por te ver assim, cheia de planos e desejos. Construindo, transformado, se libertando das peças, que esse labirinto “cabeça” vive nos pregando.
Hoje, colecionei mais um sentimento. O da divisão. Mas dessa vez, de uma separação pro bem. Vou sentir muito a sua falta, mas é uma saudade boa e sei que, haja o que houver, estaremos sempre conectados.
Acho que tudo isso era para dizer: voa irmã, você merece o mundo.
Amo você.

Era 16:10h de uma quarta-feira quente e ensolorada quando o céu ficou encoberto por uma massa cinza que, rapidamente, tomou quase toda a luz do dia. O toldo onde eu me abrigava não detinha os pingos que vinham de todos os lados, quase apagando meu cigarro. Permanecia imóvel e simplesmente observava.
Refletia sobre como dias viram noites e como tantas noites clareiam outros dias. No entanto, gastamos boa parte do tempo tentando prever acontecimentos: as próximas tempestades e os dias de sol que virão.
A sensação do conhecido nos dá uma ideia de segurança e estabilidade e, dessa forma, nos guiamos por escolhas carregadas de falsas certezas, mas “ter controle” é pura ilusão. O entorno é muito maior que tuas ideias e músculos.
É preciso prever menos e observar mais. É mais saudável saber quando e como agir, ao invés de traçar planos matemáticos todo o tempo. Afinal, tudo tem sua função. E que venham as tempestades e dias de sol.
Que a chuva apague meu cigarro e o sol seque minha roupa. Que a intempérie desgaste minha carcaça, mas que eu permaneça eterno.
Um brinde à incerteza e ao acaso que tornam essa breve passagem tão excitante. Que as boas surpresas te toquem hora dessas, e que você saiba como agir quando a tempestade chegar.

Shhhiu…
Escute os sons ganhando forma
Cortando o silêncio
E não mais se fundindo ao ruído
Sinta o vento fresco tocando teu corpo
Inspire…
Teus pensamentos, agora mais fluidos
Expire…
Vagam, enfim, pelas luzes que saltam
O âmbar sobre o preto, rastros vermelhos sobre o asfalto
Gosto de ti, madrugada
Da tua energia amena
Dessa cidade mais calma
Teu preço, porém, é alto
E pago sem escolha
Hoje é amanhã
E o amanhã ainda hoje
Bom dia
Sinto saudades de ti, boa noite

Passava das três da manhã no meio daquela sala escura que fora transformada em pista de dança. Ela conversava numa roda de amigos e, vez ou outra, me olhava. Ali da porta que dava acesso a uma espécie de quintal daquele sobrado, via rostos conhecidos e cruzava novos olhares, quase todos, embriagados.
Pessoas da ciranda da cultura e da literatura eram maioria naquela noite. Fazia calor, e o vai e vem ao redor das tinas de cerveja aumentava. Numa dessas incursões em busca de outra bebida gelada esbarro nela, acidentalmente.
Tento entender o que ela diz, mas o som alto impede. Finjo escutar atentamente enquanto avalio o grau alcoólico entre nós. Percebo que estou em vantagem. Apoiando no meu peito para manter o equilíbrio e com o olhar meio perdido, ela diz em tom de censura:
- Você falou “tô ligado”, isso é gíria da minha irmã mais nova e das amiguinhas dela.
O meu não interesse nela diminui, ainda mais, quando noto sua infantil necessidade em demonstrar certo quociente intelectual e respondo:
- Podcre!
Dali em diante, gíria virou pauta e a conversa passou do nível desinteressante para chata em poucos minutos. Percebendo minha impaciência, ela começa o interrogatório: o que faço, quem conheço, em que trabalho… zzzzzz. Desperto quando ouço:
- Mas onde você estudou? Porque eu estudei a vida toda no Pueri Domus.
Interrompo: não estudei, sou analfabeto!
Depois de balbuciar algo, ela avança dois passos em direção à amiga, em sincronismo com a minha quase corrida a cozinha, onde estavam os meus.
Pessoas cultas podem, dependendo do caso, ser muito interessantes. A expressão que diz “a base das relações é a troca” é gasta, mas verdadeira. Porém, acho mais inteligente ser transparente. E caia na real, isso inclui defeitos, vícios e uma boa dose de ignorância em muitos assuntos.
Seu repertório de livros, filmes e a decoreba de nomes de autores pode ser últil. Talvez numa entrevista de emprego, onde o entrevistador tenha a mesma capacidade que você de ler as pessoas: nenhuma.
Nos tempos de hoje, onde o acesso a tudo é fácil e instantâneo, o conhecimento, raso e horizontal, virou escudo. Vomite o que leu, assistiu ou escutou, mas não revele seus valores, crenças e medos.
As pessoas simples estão extintas, ou rotuladas de caipiras, pobres e ignorantes. A verdadeira sabedoria, cultivada pela vivência, perdeu a importância, ou sequer pode ser observada.
Vou ali trocar uma ideia com o Lando, meu porteiro, cujo papo é agradável e suas histórias trazem boas lições de vida.
Podcre?
De pé e sem camisa, aparentando mais de quarenta anos, calvo, ele digita freneticamente algo no celular andando de um lado para o outro naquela cozinha mal iluminada. Da janela de onde o vejo, mesmo a uma certa distância, dá para sentir a inquietação e o medo de que, subitamente, alguém apareça e pergunte: “que diabos você faz nesse celular a essa hora da madrugada?”.
O clima parece tenso, mas excitante.
Apago o cigarro e me distraio com um casal que se despede na rua. Ela entra no carro. Ele, uns dez anos mais velho do que seus vinte e poucos anos, espera imóvel, como se aquele tivesse sido o último beijo. Ela faz a volta, eles conversam mais uma vez, ela vai e deixa ele parado por alguns segundos até que ele volte, lentamente, para aquele prédio de cor beje e arquitetura neo clássica, típico de um novo rico paulistano.
Cedo, mais uma vez, a uma taça de vinho e a outro cigarro, quebrando a autoenganosa promessa de parar de fumar e beber. Do outro lado, dois andares abaixo, a luz do cômodo ao lado daquela cozinha se acende. Rapidamente, o vejo abrir o armário em busca de algo. Ela chega enquanto ele enche o copo no filtro de água. O assunto do celular havia encerrado repentinamente, pelo menos naquela noite.
Em cada rua, janela, cômodo ou tela de celular histórias se cruzam, tramas se travam, corações são aquecidos e outros congelados. A busca é infinita, o caminho é único e toda história tem um final, seja ele feliz ou não. Para mim só importa o trajeto, pois o resto, é mera consequência.

De tão recorrente, teu sobrenome não é mais Súbito, caro Pensamento
Tua amiga Memória, me incomoda, às vezes, com a Lembrança
É quando lembro, que é meu dever esquecer
Mas devo demais, e às vezes me canso
As ideias ficam, as pernas me levam
No trajeto, novas Lembranças
Recomponha-se então, querida Memória
Deixe entrar, deixe sair
Caro pensamento, más notícias
Aqui jaz a Lembrança, filha de tua amiga Memória
Sinto ainda em dizer que ela fora atropelada
E você nada pôde fazer por isso
Resta a ti, voltar a ser Súbito, caro Pensamento
………………………………………………………..
Muito prazer, senhor Plano
Tenho ouvido muito sobre teu pai, o Futuro
Futuro atropelou Lembrança, filha de Memória
Soube ainda, que Novidade estava envolvida
Nos conheçemos cada vez melhor, senhor Plano
Mas até agora não me apresentastes Futuro
É que Futuro mora longe
Já Depois vive perto
Senhor Plano, obrigado pelo endereço da Possibilidade
A Escolha nos levará a Longe
E Longe é onde quero chegar
Vamos comigo, senhor Plano?
Quem sabe lá não encontremos Futuro

Bom é anotar quando a memória aparenta meia vida. Num desses papos de festa, comentei com um amigo sobre três coisas que havia visto e escutado, e nunca me lembrava de mandar os nomes.
Lembrei, e largo por aqui o registro:
1-) Eskmo: o produtor é de São Francisco e faz uns beats muito honestos. Recomendo o álbum homônimo, “Eskmo”.
2-) Speech Debelle: a emcee é inglesa, tem aquelas clássicas histórias difíceis de vida, rima pra caralho, tem voz boa e recomendo o álbum Speech Therapy.
3-) Enter the Void: o filme é do Gaspar Noé, inteiro filmado em câmera subjetiva e conta a história de um maninho viciado. Achei foda! E marmanjos de plantão, passem mal com a atriz Paz de la Huerta.